"O que confia no seu próprio coração é insensato, mas o que anda em sabedoria, será salvo. ""

Provérbios28:26
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MENINOS RECLAMÕES

Pastor Guilherme escreve sobre aqueles que sempre estão reclamando

MENINOS RECLAMÕES*

"Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes" (Mateus 11.17)

A insatisfação é um fenômeno do nosso tempo. Ela atinge todas as áreas: profissional, familiar, eclesiástica, pessoal e outras. Com isso está formada uma nova sociedade onde encontramos adolescentes entediados, esposas frustradas, maridos desanimados, crentes murmuradores e por aí vai. Apesar dos avanços da tecnologia e das facilidades da vida as pessoas estão cada vez mais exigentes e descontentes. Prova disso é o crescimento e fortalecimento dos meios de defesa do consumidor onde a pessoa pode ser ressarcida, trocar ou simplesmente reclamar do bem adquirido. No último dia 15 de Março, quando se celebrou o ‘Dia Internacional do Consumidor,’ o diretor do departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, Ricardo Morishita, declarou que ‘o consumidor tem o direito de desistir da compra ou requerer a troca do produto caso se frustre quanto ao produto’ (Agência Brasil). Talvez seja por esse exato motivo que tantos maridos e esposas tem desistido do casamento, filhos tem desistido da convivência com os pais, amigos tem desistido do relacionamento de amizade e crentes tem desistido da Igreja e do próprio Cristo. Há um verdadeiro exército de frustrados e insatisfeitos querendo trocar de cônjuge, igreja, pais, vizinhos, trabalho, escola e por aí vai.

Essa insatisfação ultrapassa os limites do relacionamento entre as pessoas e atinge até a fé e consequentemente o relacionamento com Deus. Há muita gente decepcionada com o Senhor porque Ele permitiu alguma coisa, ou respondeu a oração de determinada maneira ou está demorando para dar o que pedi. Alguns teriam a coragem de chegar diante da ‘ouvidoria celestial’ (criatividade minha) e preencher um formulário de reclamação dizendo que discordam da forma como Deus fez determinadas coisas e gostariam de ser ressarcidos da resposta recebida ou mesmo da bênção derramada. Será que algum de nós estaria nessa fila?

Alguns não chegariam a tal extremo mas com certeza se apresentariam diante da ‘ouvidoria da igreja’ para reclamar de cultos, mensagens, pastores, líderes, organização e outros. Seria até engraçado alguém requerer seu dízimo de volta porque não gostou da mensagem do pastor ou então porque achou o culto muito barulhento ou então discordou do ensino dado em sala de aula. No formulário de reclamação apareceria de tudo, desde a frieza de um culto até a falta de hospitalidade de um professor de escola bíblica. Haveria reclamações sobre várias coisas: pessoas, estrutura, espiritualidade, prédio, música, ensino, mensagem e outros. Podemos até imaginar um PROCON para as igrejas e aquelas famosas audiências de conciliação onde de um lado estaria um juiz e do outro um pastor e um membro de igreja, ou dois membros de igreja, ou um professor de escola bíblica e um aluno e assim por diante.

Insatisfação gera cobranças, destrói relacionamentos, e inventa culpados. O insatisfeito crônico não consegue enxergar beleza nas coisas e nem alegria e passa a respirar descontentamento. Jesus falou sobre os religiosos de sua época qualificando-os como insatisfeitos. Disse que eram como meninos que quando deveriam dançar e cantar, ficavam carrancudos, e quando a brincadeira mudava, também não pretendiam participar. Não tinham reações positivas e nem de contentamento. Seu perfil os levava a criticar, reclamar e murmurar.

Essa atitude nascera muito antes de Jesus Cristo quando o povo se libertara do cativeiro Egípcio. Podemos vê-la no deserto quando do recebimento do maná enviado por Deus. Diante daquele cereal do céu o povo sentiu saudade da carne do Egito. O que havia de errado com o maná? Nada! Essa insatisfação se prolongou e se manifestou em diversos outros momentos na história do povo provocando cativeiros,

derrotas e sofrimentos. Os fariseus da época de Cristo eram o resultado de séculos e séculos de reclamação, insatisfação e murmuração.

Me pergunto o motivo pelo qual Jesus comparou aqueles religiosos com meninos e a única resposta que me vêm à mente é que o insatisfeito contumaz de fato é infantil em sua maneira de ver o mundo. Quando uma criança apresenta agressividade ou dispersão em sala de aula em geral seu problema não é com o professor ou com o coleguinha mas sim com as perplexidades que seu coração enfrenta, em geral originadas em sua casa. Por não conseguir entendê-las e resolvê-las ela leva para a escola essa crise interior e a manifesta batendo no colega, sendo agressiva com o professor ou deixando de fazer suas tarefas.

Há muitos ‘meninos reclamões’ que na verdade estão escondendo problemas familiares, conflitos emocionais e existenciais e ou frustrações pessoais. Sua insatisfação com as pessoas, igreja ou sociedade nada mais é do que um grito de socorro vindo de um coração sofredor. Sua insatisfação real não é com o culto mas sim com sua condição de adorador. Sua murmuração não é contra um líder mas sim com sua dificuldade em se submeter à autoridade. Sua crítica não é contra a falsidade das pessoas mas sim com sua incapacidade de fazer amizades. Sua reclamação não é com a dureza da mensagem mas sim com o pecado que habita em seu coração.

Um conhecido ‘menino reclamão’ na Bíblia foi Jonas. Ainda que tenha sido um pregador de sucesso, afinal uma cidade inteira se converteu com sua pregação, continuava reclamando. Qualquer um se alegraria naquela situação mas ele estava chateado. Deus lhe fez a seguinte advertência: "É razoável esta tua ira?."

Possivelmente todos nós merecemos a mesma advertência em alguma área de nossa vida. "É razoável o teu descontentamento, o teu desprazer, o teu olhar de enfado, onde nada está bom?" Vasculhemos nosso coração e mente e busquemos a real fonte de nossa insatisfação. Nada será bom se nós estivermos escondendo situações não tratadas ou sentimentos destrutivos. E aí, não haverá música que nos faça rir ou chorar, seremos meninos e não homens e mulheres adultos na fé.

Que a satisfação vença a reclamação, a alegria domine sobre a tristeza e o prazer nas coisas de Deus vença o descontentamento que está no coração,

Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Pastor Titular da Igreja Batista Betel

prgimenez@ibatistabetel.org.br

(* Texto escrito a partir da idéia original do Pr. Daniel Rocha no texto ‘A Era dos Insatisfeitos’)



Pr. Guilherme


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