Artigo do Pastor Guilherme
ADAPTAÇÃO, TRADICIONALISMO E MELHOR ESCOLHA?
“A Tradição é a fé viva dos que já morreram; tradicionalismo é a fé morta dos que ainda estão vivos” (Charles Swindoll)
O ser humano tem grande capacidade para adaptar-se às mais diferentes situações. Olhando para a história da humanidade percebemos isso de modo claro. Não houve lugar, clima ou realidade social difícil o bastante para impedir o homem de adaptar-se. A povoação do planeta, a sobrevivência diante de tragédias e até mesmo a reconstrução depois de guerras mostra que o ser humano tem como parte de sua estrutura um grande poder de adaptação. Ainda que em um primeiro momento ele sofra com situações novas no final mostrará sua capacidade de adaptar-se.
Karl-Otto Apel, filósofo alemão e um dos mais influentes teóricos da Escola de Frankfurt, participou ativamente da criação de uma teoria de adaptação. Ele explicou como acontece o processo pelo qual o homem vai se ajustando às condições do meio em que vive e cria uma ‘tradição’ no sentido de repetição de um comportamento após ter se adaptado ao meio. Parte dessa idéia se encontra na obra Understanding and Explanation: A Transcendental-Pragmatic Perspective. Ele argumenta, inclusive, que com o passar do tempo a adaptação já estabelecida acaba se tornando prejudicial para enxergarmos melhores escolhas a serem feitas dentro do contexto onde vivemos. Sobre isso Carl McIntere, autor de A Morte de Uma Igreja, argumenta que as tradições nascem exatamente da perfeita adaptação de um grupo à determinadas idéias, costumes ou doutrinas. O problema, segundo ele, é que a tradição não se preocupa muito com as mudanças que vão acontecendo com o tempo e aí ela se transforma em tradicionalismo, que segundo Charles Swindoll, é uma fé morta.
Toda Igreja vive o dilema da adaptação e do tradicionalismo. Quem não se lembra de momentos em que já estávamos tão adaptados a determinada coisa e de repente tivemos que mudar? Aqui poderíamos incluir horários de culto, espaço físico, hinário ou até mesmo líderes de Igreja. E é bom lembrar que vivendo em um mundo de mudanças cada vez mais rápidas, acabamos nos deparando com novas adaptações constantemente. Quando achamos que já estamos adaptados aí chega uma novidade e precisamos fazer uma dura escolha: permanecer adaptados ou começar um novo processo de adaptação? É preciso ser sábio para tomar essa decisão.
Temos um exemplo bíblico interessante sobre a questão da adaptação. Jesus certa vez esteve na casa de Marta e Maria para fazer uma refeição (Lucas 10:38-42). Era costume as mulheres prepararem uma ceia farta e também oferecer ao visitante todo o conforto possível para que fizesse uma excelente refeição. Segundo o rabino Joseph Telushkin, autor de Biblical Literacy, a comida e a arrumação da casa era sinônimo de boas vindas. Mas naquela ocasião o visitante era por demais ilustre: o próprio Jesus Cristo. Será que apenas a comida seria suficiente para dar a ele as boas vindas? Marta acho que sim. Começou a preparar a melhor refeição que conhecia, escolheu a toalha mais bonita para a mesa e caprichou em todos os detalhes. Maria pensou diferente. Sentou aos pés de Jesus e simplesmente o ouviu. Ali se criou um impasse: qual das duas estaria correta? A resposta foi dada pelo próprio Cristo: Maria estava certa! Ela havia escolhido a ‘boa parte’ (Verso 42). Um estudo dessa frase demonstrará que Maria havia feito a ‘melhor escolha.’ A palavra grega agathos (já transliterado) traz a idéia de alguém que observa atentamente todas as alternativas e decide pelo melhor.
Sempre estaremos diante de novas adaptações. Ou seremos tradicionalistas e nem sequer pensaremos se tal adaptação é necessária ou pelo menos coerente ou então partiremos para a decisão através da melhor escolha. Os religiosos da época de Jesus Cristo preferiram o tradicionalismo e a manutenção daquilo com o qual já estavam acostumados. O mesmo pode acontecer conosco. Toda vez que ignorarmos a excelência do hóspede, seja ele uma idéia ou mesmo um desafio deste tempo, estaremos correndo o risco de sermos marta e não Maria. Aqui me vem à memória uma situação ocorrida em uma Igreja que conheci na década de 90 no Rio de Janeiro. Em uma assembléia que decidia sobre a adoção do Hinário para o Culto Cristão em substituição ao Cantor Cristão um irmão desabafou: ‘agora que eu já conhecia a maioria dos hinos serei obrigado a aprender novos hinos...’ Aquela frase mostrou como novas adaptações trazem inquietude, afinal, elas de fato nos obrigam a aprendermos muitas coisas novas e em alguns casos a deixarmos outras com as quais já tínhamos domínio ou conhecimento amplo.
Ainda assim precisamos pensar em qual é a melhor escolha para hoje. Fazer isso nos dará condições de enfrentarmos novas adaptações e seguirmos em frente movidos pela fé viva que deve ser mantida mas não pela fé morta que mais do que nunca deve ser extinta. Que Deus nos dê a sensibilidade e sabedoria para tomarmos as melhores decisões.
Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez
Pastor Titular da Igreja Batista Betel
Pastor Guilherme